domingo, 27 de março de 2011

A Canção do Espelho Precioso do Samadhi

Esta é a Canção do Espelho Precioso do Samadhi do Mestre Zen (Ch'an) Tung-shan Liang-chieh (cujo nome em japonês é Tõzan Ryõkai, 807-869), que é o fundador da Escola  Ts'ao-tung de Zen Budismo. Ele foi contemporâneo de  Lin-chi I-hsüan (Rinzai Gigen, d.866).

Seus ditos e ensinamentos foram compilados em Tung-shan Ch'an-shih Liang-chieh Yü-lu (Tõzan Ryõkai Zenji Goroku ); (Dainihon Zokuzõkyõ, vol. 2 No. 24).

Eis minha* tradução da Canção do Espelho Precioso do Samadhi, a partir das traduções em inglês feitas do chinês e japonês, que podem ser encontradas neste site.

***
O dharma da naturalidade é intimamente transmitido por budas e ancestrais.

Agora você o tem, preserve-o bem.

Uma tigela de prata repleta de neve, uma garça escondida na lua.

Distantes, são semelhantes, próximas, não são iguais.

O significado não reside nas palavras, mas é produzido em um momento essencial.

Mova-se e está preso, erre e você cai em dúvida e vacilação.

Rejeitar ou apegar-se a palavras são ambos errados, pois é como uma bola de fogo: útil mas perigosa.

Retratar o espelho em forma literária é manchá-lo com aviltamento.

Na noite mais escura, ele é perfeitamente claro; à luz do dia ele não pode ser visto.

É o princípio para todas as coisas; seu uso remove todo sofrimento.

Embora não aja, não está além das palavras.

É como encarar um espelho precioso: a forma encontra seu reflexo.

Você não é ele, mas na verdade ele é você.

Como uma criança recém-nascida, ela é inteiramente dotada de cinco  sentidos;

Não ir, não vir, não surgir, não suportar,

Balbucios e arrulhos; fala sem sentido;

Sem compreensão, palavras ainda não orretas.

No hexagrama [seis linhas formando o duplo trigrama] "fogo duplo", quando as linhas principais e secundárias são transpostas,

E empilhadas, tornam-se três; as permutações formam cinco.

Como o gosto da erva de cinco sabores, como o vajra (diamante) de cinco pontas,

A realidade se harmoniza sutilmente, como ritmo e melodia, que juntos compõem a música.
Penetre a raiz e meça os ramos, encontrando as conexões, daí alguém encontra o caminho.

Você faria bem em respeitar isso; não negligenciá-lo.

Natural e maravilhoso, não é uma questão de ilusão ou
iluminação.

Dentro de causas e condições, tempo e estação, é sereno e iluminador.

Tão pequeno que entra onde não há lacuna, tão vasto que
transcende a dimensão.

Um desvio de um fio de cabelo e você está fora de sintonia.

Agora, há escolas com princípios súbitos e graduais, em que ensinamentos e
abordagens surgem.

Com ensinamentos e abordagens distintos, cada um tem seu padrão.

Se os ensinamentos e as abordagens são dominados ou não, a realidade flui constantemente.

Sereno fora e tremendo dentro, como potros amarrados ou ratos escondidos.

Os antigos sábios sofreram por eles, e os libertaram com o dharma.

Levados por suas visões invertidas, as pessoas tomam preto por branco.

Quando o pensamento invertido pára, a mente é realizada sem o mínio esforço.

Se você quer seguir a trilha antiga, então observe os sábios do passado.

O Buda, ao completar o caminho, ainda assim permaneceu sentado por dez kalpas (ciclo cósmico de duração imensurável).

Como um tigre cheio de cicatrizes de batalha, como um cavalo com patas  presas.

Para aqueles que são vulgares, mesas com jóias e roupas ornamentadas.

Para aqueles que se admiram, um gato e uma vaca.

Com sua habilidade de arqueiro, Yi atingiu a marca a uma centena de passos.

Mas quando setas se atingem ponta com ponta no ar, não há comparação com essa habilidade.

O homem de madeira começa a cantar, a mulher de pedra se levanta  e
dança.

Eles não podem ser conhecidos sentimentos ou consciência, como poderiam
ser analisados?

Ministros servem seus senhores, crianças obedecem seus pais.

Não obediência é não filial, não servir é um desperdício inútil.

Prática interior, funcionar secretamente, fazer-se de tolo, parecendo idiota,

Persistir desta forma é o caminho para ver o senhor dentro do senhor.

***

*Gentil Saraiva Jr.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Canção da Iluminação de Yung-chia Hsuan-chueh

Eis o poema CHENG-TAO-KO [Zhengdaoge] (C.); (J. Shodoka (J.); Canção da Iluminação, Canção do Satori Imediato, Canção da Realização, Canção da Realização da Via, que também é chamado de Odes sobre Iluminação, que é um poema didático Zen Budista em 64 estrofes de princípios básicos do Ch'an (Zen).

Sua autoria é tradicionalmente atribuída a Yung-chia Hsuan-chueh

[Yongjia Xuanjue] – um dos mestres mais talentosos da escola Ch'an (Zen)

durante a Dinastia T'ang na China.

Yung-chia Hsuan-chueh [também conhecido sob os nomes de Yung-chia

Hsuan-chio, Grande Mestre Chen-chio, Yoka Genkaku (J.), Yoka Daishi (J.)]

foi um erudito e monge que viveu entre os anos de 665-713. Ele foi um herdeiro do Dharma do sexto Patriarca Zen, Hui-neng e irmão de Dharma de tais personalidades como Ch'ing-yuan Hsing-ssu (J. Seigen Gyoshi), Nan-yueh Huai-jang (J. Nangaku Ejo), Nan-yang Hui-chung (J. Nan'yo Echu) e Ho-tse Shen-hui (J. Kataku Jinne).

O poema Cheng-tao-ko foi publicado em 1924-1934 no Japão como parte do Cânone Budista Publicado na Era Taisho [Taisho Shinshu Daizokyo, No. 2014, Vol. 48].

Ele foi também traduzido do chinês para o inglês e recebeu comentários extensos do Mestre Zen Sheng-Yen em seu livro de 1990 A Espada da Sabedoria: Palestras sobre 'A Canção da Iluminação (The Sword of Wisdom: Lectures on 'The Song of Enlightenment'. Elmhurst, N.Y.: Dharma Drum Publications).

Esta tradução (para o inglês, a partir da qual traduzi* o poema para o português) do japonês foi preparada nos anos 1960s por Mr Robert Aitken e Eido Shimano Sensei para a Sociedade Zen Budista Sangha Diamante (Diamond Sangha Zen Buddhist Society, Koko An, 2119 Kaloa Way, Honolulu, Hawaii, USA 96822). Sua tradução foi subsequentemente re-impressa em um livro Sutras Diários para Cântico e Recitação (Daily Sutras for Chanting and Recitation. n.d. New York: New York Zendo of the Zen Studies Society Inc).

Em dezembro de 1991 a tradução de Aitken-Shimano foi revisada por Robert Aitken Roshi e incorporada (sob seu título japonês 'Shodoka') em uma coletânea de Sutras Zen Diários utilizadas na própria Sangha Diamante bem como por outros centros e comunidades Zen afiliadas, incluindo a Sangha Diamante da Califórnia (California Diamond Sangha), o Centro Zen de Sydney (Sydney Zen Center) e o Grupo Zen do Oeste da Austrália (Zen Group of Western Australia).

- T.Matthew Ciolek <tmciolek@coombs.anu.edu.au>

19 de Novembro de 1993.

-> As informações acima, junto com o texto do poema em inglês que serviu de base para minha tradução, foram retiradas deste site.

***

Esta é a minha* tradução da versão em inglês da Canção da Iluminação mencionada acima:
Verso 1 - Lá vai o vagaroso...

Lá vai o vagaroso,
Percorrendo o Tao, além da filosofia,
Não evitando a fantasia, não buscando a verdade.
A natureza real da ignorância é a natureza do próprio Buda;
O corpo vazio ilusório é o próprio corpo do Dharma.

Quando o corpo do Dharma desperta completamente,
Não há nada em absoluto.
A fonte de nossa auto-natureza
É o Buda da verdade inocente.
Reações mentais e físicas vêm e vão
Como nuvens no céu vazio;
Ganância, ódio e ignorância aparecem e desaparecem
Como bolhas na superfície do mar.

Quando percebemos a realidade,
Não há distinção entre mente e coisa
E o caminho para o inferno imediatamente desvanece.
Se isto é uma mentira para enganar o mundo,
Minha língua pode ser cortada para sempre.

Uma vez que despertarmos para o Tathagata-Zen [aquele que alcançou a iluminação, o Buda Shakyamuni],
As seis ações nobres e as dez mil boas ações
Estão já completas dentro de nós.
Em nosso sonho vemos os seis níveis da ilusão claramente;
Depois de despertarmos todo o universo está vazio.

Nenhuma má sorte, nenhuma boa sorte, nenhuma perda, nenhum ganho;
Nunca busque essas coisas na serenidade eterna.
Durante anos, o espelho empoeirado ficou sujo,
Agora vamos poli-lo completamente, de uma vez por todas.

Quem tem não-pensamento? Quem é não-nascido?
Se somos verdadeiramente não-nascidos,
Também não somos in-nascidos.
Pergunte a um robô se isso não é assim.
Como podemos perceber-nos
Através de ações virtuosas ou procurando o Buda?

Libere seu apego à terra, água, fogo, vento;
Beba e coma conforme deseja em serenidade eterna.
Todas as coisas são transitórias e completamente vazias;
Esta é a grande iluminação do Tathagata [aquele que alcançou a iluminação, o Buda Shakyamuni].

Transitoriedade, vazio e iluminação --
Estas são as verdades supremas do Budismo;
Mantê-las e ensiná-las é a verdadeira devoção da Sangha [comunidade budista].
Se você não concorda, por favor, pergunte-me sobre isso.
Corte diretamente a raiz de tudo, --
Este é o ponto exato do selo de Buda.
Não posso responder a nenhuma preocupação com folhas e galhos.

As pessoas não reconhecem a jóia-Mani [Om Mani Padme Hum].
Vivendo intimamente na garbha Tathagata [natureza de Buda],
Ela opera nossa visão, audição, olfato, paladar, sensação, consciência;
E todos eles estão vazios, no entanto, não estão vazios.

Os raios que brilham desta perfeita jóia-Mani
Têm a forma de nenhuma forma.
Clarifique os cinco olhos e desenvolva as cinco potências;
Isto não é um trabalho intelectual, -- basta perceber, basta saber.
Não é difícil ver imagens em um espelho,
Mas quem pode pegar a lua na água?

Sempre trabalhando sozinho, sempre caminhando sozinho,
O iluminado trilha o caminho livre do Nirvana
Com melodia que é velha e clara em espírito
E naturalmente elegante em estilo,
Mas com corpo que é forte e ossudo,
Passando despercebido no mundo.

Sabemos que os filhos e filhas de Shakya[muni]
São pobres em corpo, mas não no Tao.
Em sua pobreza, sempre usam roupas esfarrapadas,
Mas eles têm a jóia sem preço guardada dentro de si.

Esta jóia sem preço nunca pode ser consumida
Embora a gastem livremente para ajudar pessoas que encontram.
Dharmakaya, Sambogakaya, Nirmanakaya [Trikaya: a mente, a fala e o corpo de Buda],
E os quatro tipos de sabedoria
Estão todas contidas dentro.
Os oito tipos de emancipação e os seis
poderes universais
Estão todos impressos no fundo de sua mente.

O melhor aluno vai diretamente ao que é supremo,
Os outros são muito instruídos, mas sua fé é incerta.
Remova as sujas vestimentas de sua própria mente;
Por que você deveria exibir seu esforço exterior?

Alguns podem caluniar, alguns podem injuriar;
Tentam incendiar os céus com uma tocha
E acabam meramente se cansando.
Ouço seus escândalos como se fosse verdade ambrosíaca (deliciosa);
Imediatamente tudo derrete
E entro no lugar além de pensamento e palavras.

Quando considero a virtude de palavras abusivas,
Descubro que o criador de escândalos é um bom professor.
Se não ficarmos com raiva de fofocas,
Não precisamos de resistência poderosa e compaixão.
Ser maduro no Zen é ser maduro em expressão,
E esplendor de lua cheia de dhyana [meditação, concentração] e prajna [sabedoria perfeita alcançada na iluminação]
Não estagna no vazio.
Não só posso alcançar a completa iluminação sozinho,
Mas todos os corpos de Buda, como as areias do Ganges
Podem tornar-se despertas exatamente da mesma maneira.

O incomparável rugido de leão de uma doutrina
Despedaça os cérebros de cem espécies de animais.
Até mesmo o rei dos elefantes fugirá, esquecendo seu  orgulho;
Somente o dragão celestial ouve calmamente, em puro deleite.

Perambulei por rios e mares, cruzando montanhas e
córregos,
Visitando professores, perguntando sobre a Via [o Caminho] em entrevistas pessoais;
Desde que reconheci o Sexto Mestre Fundador em Ts'ao Ch'i,
Sei o que está além da relatividade de nascimento e morte.

Caminhar é Zen, sentar-se é Zen;
Falando ou em silêncio, ativo ou quieto, a essência está em paz.
Mesmo encarando a espada da morte, nossa mente está imóvel;
Mesmo bebendo veneno, nossa mente está quieta.

Nosso mestre, Shakyamuni, conheceu Buda Dipankara
E por muitas eras ele treinou como Kshanti, o asceta.
Muitos nascimentos, muitas mortes;
Estou sereno neste ciclo, -- não há fim para ele.

Desde que percebi o nascituro abruptamente,
Não tenho tido nenhum motivo de alegria ou tristeza
Em qualquer honra ou desgraça.

Entrei nas montanhas profundas em busca de silêncio e beleza;
Em um vale profundo sob altos despenhadeiros,
Sento-me sob os velhos pinheiros.
Zazen em minha cabana rústica
É tranquilo, solitário e verdadeiramente confortável.

Quando você verdadeiramente desperta,
Você não tem mérito formal.
Na multiplicidade do mundo relativo,
Você não pode encontrar tal liberdade.
Mérito autocentrado traz a alegria do próprio céu,
Mas é como atirar uma flecha ao céu;
Quando a força se esgota, ela cai na terra,
E então tudo vai mal.

Por que isso deveria ser melhor
Que o verdadeiro caminho do absoluto,
Diretamente penetrando o solo de Tathagata?  [aquele que alcançou a iluminação, o Buda Shakyamuni]

Apenas agarre a fonte
E esqueça as ramificações.
É como uma lua-tesouro
Incrustrada em uma bela esmeralda.
Agora entendo esta jóia-Mani
E o meu ganho é o ganho de todos indefinidamente.

A lua brilha sobre o rio,
O vento sopra através dos pinheiros, --
De quem é a providência desta longa noite bonita?
A jóia da natureza búdica da moralidade
Está impressa no fundo de minha mente,
E o meu manto é o orvalho, o nevoeiro, a nuvem e a névoa.

Uma tigela uma vez acalmava dragões
E um cajado separava tigres em combate;
Os anéis neste cajado retinem musicalmente.
A forma dessas expressões não é para ser tomada alegremente;
O valioso cajado do Tathagata
Deixou vestígios para que o sigamos.

O desperto não busca verdade --
Não corta ilusão.
Verdade e ilusão são ambas vazias e sem forma,
Mas essa não-forma não é nem vazia nem não vazia;
É a forma verdadeiramente real do Tathagata [aquele que alcançou a iluminação, o Buda Shakyamuni]. 

A mente-espelho é clara, assim não há obstáculos.
Seu brilho ilumina o universo
Até as profundidades e em cada grão de areia.
Numerosas coisas do cosmos
Estão todas refletidas na mente,
E esta completa claridade está além de interno e externo.

Viver no nada é ignorar causa e efeito;
Este caos somente leva a desastre.
Aquele que se apega ao vazio, rejeitando o mundo das coisas,
Escapa do afogamento, mas pula dentro do fogo.

Segurando a verdade e rejeitando a ilusão --
Estes são apenas mentiras hábeis.
Alunos que fazem zazen por tais mentiras
Amam o roubo em seus próprios filhos.

Eles perdem o tesouro do Dharma;
Eles perdem poder acumulado;
E este desastre segue-se diretamente ao pensar dualista.
Assim, Zen é a realização completa da mente,
O corte completo da ilusão,
O poder da visão sábia penetrando diretamente ao nascituro.

Estudantes de vontade vigorosa segurarão a espada da sabedoria;
O gume prajna é uma chama de diamante.
Ela não só corta conhecimento inútil,
Mas também extermina ilusões.

Rugem com o trovão Dharma;
Batem o tambor Dharma;
Espalham nuvens de amor, e derramam chuva ambrosíaca.
Seus passos gigantes nutrem seres ilimitados;
Sravaka, Pratyeka, Bodhisattva [discípulos do Buda, Revelado solitário, Ser da Revelação] – estão todos iluminados;
Cinco tipos de natureza humana estão todos emancipados.

No alto do Himalaia, apenas grama fei-ni cresce.
Aqui as vacas produzem leite puro e delicioso,
E este alimento eu sempre desfruto.
Uma natureza completa passa a todas naturezas;
Um Dharma universal abrange todos os Dharmas.

Uma lua é refletida em muitas águas;
Todas as luas de águas provém da única lua.
O corpo do Dharma de todos os Budas entrou em minha própria natureza,
E minha natureza torna-se una com o Tathagata.

Um nível contém completamente todos os níveis;
Não é matéria, mente, nem atividade.
Em um instante oitenta mil ensinamentos são efetuados;
Em um piscar de olhos o mal de eras é destruído.

Todas as categorias são categoria nenhuma;
Que relação têm essas com minha visão interior?
Além do elogio, além da culpa, --
Como o espaço em si, não tem limites.

Bem aqui ela é eternamente plena e serena,
Se procurar em outro lugar, não pode vê-la.
Você não pode agarrá-la, não pode rejeitá-la;
No meio do não ganhar,
Nessa condição você a ganha.

Ela fala em silêncio,
No discurso você ouve seu silêncio.
O grande caminho se abriu e não há obstáculos.
Se alguém pergunta, qual é a sua seita
E como você entende isso?
Eu respondo, o poder da sabedoria tremenda (prajna: sabedoria perfeita da iluminação).

As pessoas dizem que ela é positiva;
As pessoas dizem que ela é negativa;
Mas elas não sabem.
Uma estrada suave, uma estrada áspera --
Mesmo o céu não consegue imaginar.
Continuei o meu zazen por muitas eras;
Não digo isso para lhe confundir.

Eu ergo a bandeira do Dharma e demonstro nosso ensino;
É a clara doutrina do Buda
Que encontrei com meu professor, Hui Neng,
Mahakashyapa tornou-se o sucessor de Buda,
Recebeu a lâmpada e passou-a adiante.
Vinte e oito gerações de mestres na Índia,
Aí sobre mares e rios para nossa terra
Bodhi Dharma veio como nosso primeiro fundador próprio,
E seu manto, como todos sabemos, passou por seis mestres aqui,
E quantas gerações vindouras possam ganhar o caminho,
Ninguém sabe.

A verdade não é demonstrada;
O falso é basicamente vago.
Ponha de lado existência e não-existência,
Assim, mesmo não-vácuo é vago,
Os vinte tipos de vácuo não têm fundamento,
E a unidade do ser-Tathagata
É naturalmente similaridade.

A mente é a base, os fenômenos são pó;
No entanto, ambos são como uma falha no espelho.
Quando a falha é removida,
A luz começa a brilhar.
Quando a mente e os fenômenos são esquecidos,
Então nós nos tornamos naturalmente genuínos.

Ah, o mundo materialista degenerado!
As pessoas são infelizes; elas acham o auto-controle difícil.
Nos séculos após Shakyamuni, visões falsas são profundas,
Demônios são fortes, o Dharma é fraco, as perturbações são
muitas.

As pessoas ouvem a doutrina da proximiedade do Buda,
E se elas a aceitam, os demônios serão esmagados
Tão facilmente como uma telha.
Mas elas não conseguem aceitar, que pena!

Sua mente é a fonte da ação;
Seu corpo é o agente da calamidade;
Nenhuma pena ou culpa a ninguém mais.
Se você não busca um convite ao inferno,
Nunca calunie o verdadeiro ensinamento do Tathagata.

Na floresta de sândalo, não há outra árvore.
Somente o leão vive num bosque tão profundamente exuberante,
Vagando livremente em um estado de paz.
Outros animais e pássaros ficam bem longe.

Apenas os filhotes de leões seguem o pai,
E os filhotes de três anos de idade já rugem alto.
Como pode o chacal perseguir o rei do Dharma
Mesmo com cem mil artes demoníacas?

A doutrina de retidão do Buda
Não é uma questão para a emoção humana.
Se você duvida disso ou se sente inseguro,
Então você deve discutir isso comigo.
Este não é o livre curso do ego de um monge da montanha.
Temo que sua formação pode levar a visões erradas
Da alma permanente ou da extinção completa.

Ser é não ser; não-ser não é não-ser;
Erre esta regra por um fio de cabelo,
E você está distante mil milhas.
Ao compreendeer isso, a criança-dragão atinge abruptamente o
Estado de Buda [perfeita iluminação];
Ao se enganar, o maior erudito cai no inferno.
Desde minha juventude empilhei estudos em cima de estudos,
Nos sutras e sastras [sermões e preceitos] busquei e pesquisei,
Classificando termos e formas, alheio à fadiga.
Entrei no mar para contar os grãos de areia em vão
E então o Tathagata repreendeu-me gentilmente
Quando li "Qual o lucro em contar o tesouro de seu vizinho ?"
Meu trabalho tinha sido disperso e totalmente inútil,
Durante anos fui poeira soprada pelo vento.

Se a natureza da semente está errada, desentendimentos surgem,
E a doutrina de proximidade do Buda não pode ser alcançada.
Estudantes de Shravaka e Pratyeka podem estudar seriamente
Mas falta-lhes aspiração.
Outros podem ser muito espertos,
Mas lhes falta prajna [sabedoria].

Estúpidos, infantis,
Eles supõem que há algo em um punho vazio.
Confundem o dedo apontado com a lua.
São sonhadores ociosos perdidos na forma e na sensação.

Não supor algo é o Tathagata.
Este é verdadeiramente chamado Kwan-Yin, o Bodhisattva que vê
livremente.
Quando despertos, constatamos que os obstáculos cármicos são fundamentalmente
vazios.
Mas quando não estamos despertos, devemos pagar todas as nossas dívidas.

Os famintos são servidos uma refeição de rei,
E não podem comer.
Os doentes encontram o rei dos médicos;
Por que não se recuperaram?
A prática do Zen neste mundo ganancioso --
Este é o poder da visão sábia.
A flor de lótus vive no meio do fogo;
Ela nunca é destruída.

Pradhanashura quebrou os preceitos mais graves;
Mas ele prosseguiu para realizar os nascituros.
O estado de Buda que ele alcançou naquele momento
Vive com a gente agora em nosso tempo.

O rugido incomparável de leão da doutrina!
Como é triste que as pessoas sejam teimosamente ignorantes;
Basta saber que o crime bloqueia a iluminação,
Não ver o segredo do ensino do Tathagata.

Dois monges eram culpados de assassinato e sensualidade.
Seu líder, Upali, teve a luz de um vaga-lume;
Ele apenas aumentou a culpa deles.
Vimalakirti esclareceu suas dúvidas de uma vez
Como o sol derrete o gelo e a neve.

O notável poder da emancipação
Produz maravilhas inumeráveis ​​como as areias do Ganges.
A isto oferecemos vestimentas, alimento, roupas de cama, remédios.
Dez mil peças de ouro não são suficientes;
Embora você quebre seu corpo
E seus ossos se tornem pó, --
Isso não é suficiente como retribuição.
Uma palavra viva supera milhões de anos de prática.

O Rei do Dharma merece nosso maior respeito.
Tathagatas, inumeráveis ​​como as areias do Ganges,
Todos comprovam este fato por sua realização.
Agora eu sei que é a jóia-Mani:
Aqueles que acreditam nisso vai ganhá-la adequadamente.

Quando verdadeiramente enxergamos, não há nada em absoluto.
Não há nenhuma pessoa; não há Buda.
Inúmeras coisas do universo
São apenas bolhas no mar.
Doutos sábios são todos como brilhos de relâmpagos.

No entanto, o anel de ferro em brasa gira em torno de minha cabeça,
Com integralidade brilhante de dhyana e prajna
Eu nunca perco minha serenidade.
Se o sol se tornar frio, e a lua quente,
O mal não pode destruir a verdade.
O elefante se movimenta como uma montanha,
Como pode o louva-a-deus bloquear a estrada?

O grande elefante não se demora na trilha do coelho.
A grande iluminação não está preocupada com detalhes.
Não diminua o céu olhando por um tubo.
Se mesmo assim você não entender,
Estabelecerei isso para você.

***

* Gentil Saraiva Junior

sexta-feira, 11 de março de 2011

Hsin Hsin Ming de Seng Ts'an: A Mente da Confiança Absoluta

Publico aqui minha* tradução (feita de forma livre, como curiosidade, já que deve haver traduções melhores publicadas) deste poema instrutivo do terceiro patriarca do Zen, Seng-Ts'an, falecido cerca de 606 d.C. (a partir da tradução para o inglês feita por Richard B. Clarke, que pode ser lida aqui).

Este poema, um dos mais belos que já li na minha vida, segundo Jacques Brosse (que também o traduziu, em seu livro Os Mestres Zen; Ed. Pergaminho, 1999), é “consagrado ao não-dualismo fundamental”.

Aliás, de novo, segundo Brosse, Seng-Ts'an é o famoso mestre zen que se tornou o sucessor do segundo patriarca, Houei-k'o, porque lhe respondeu com as seguintes palavras ao ser admoestado por ele assim:

“Padeces de lepra. Que esperas de mim?”

Ao que Seng-Ts'an respondeu: “Embora o meu corpo esteja doente, o meu espírito não é diferente do vosso próprio espírito.”

Ao ouvir isso, o segundo patriarca reconheceu em Seng-Ts'an o seu sucessor, aceitando-o como discípulo (BROSSE, 1999, pp.36-7).

Já que falamos dos patriarcas do Zen, lembro que o primeiro patriarca é Bodhidharma.

Quanto ao poema, seu título pode ser Inscrito na Mente que Acredita, ou A Mente da Confiança Absoluta.

Ele ensina como seguir O Caminho, ou A Via, o Tao, como dizem os orientais. Isso significa a compreensão da unidade do universo, isto é, a unidade de tudo com tudo em tudo no todo. Esta é a única compreensão que realmente precisamos ter do mundo, pois todo o resto vai estar em paz depois disso, afinal de contas, o maior medo do ser humano é estar sozinho neste planeta, separado do cosmo, e de tudo que existe nele.

No entanto, essa separação é uma ilusão que afeta a todos nós, por isso é necessário voltar aos mestres orientais para aprendermos com eles a seguir A Via de novo, em unidade com o cosmos.

Apreciem então a maravilha que Seng-Ts'an nos legou com sua sabedoria, que nos leva de volta ao Caminho da Consciência da Unidade Cósmica:

A Grande Via não é difícil
para aqueles que não têm preferências.
Quando o amor e o ódio estão ambos ausentes,
tudo torna-se claro e sem disfarces.
Faça a menor distinção, entretanto,
e céu e terra são separados infinitamente.
Se deseja ver a verdade,
então não tenha opiniões a favor ou contra nada.
Fixar o que você gosta contra o que você não gosta
é a doença da mente.
Quando o profundo significado das coisas não é entendido,
a paz essencial da mente é perturbada inutilmente.

A Via é perfeita como o vasto espaço,
onde nada falta e nada está em excesso.
De fato, é devido à nossa escolha de aceitar ou rejeitar
que nós não vemos a verdadeira natureza das coisas.
Não viva no emaranhado das coisas exteriores,
nem nos sentimentos interiores de vazio.
Seja sereno na unidade das coisas
e tais idéias errôneas desaparecerão por si mesmas.
Quando você tenta parar a atividade para alcançar a passividade,
seu próprio esforço lhe enche de atividade.
Enquanto você permanecer em um extremo ou no outro,
você nunca conhecerá a Unidade.
Aqueles que não vivem na Via única
fracassam na atividade e na passividade,
na afirmação e na negação.
Negar a realidade das coisas
é perder sua realidade;
afirmar o vazio das coisas
é perder sua realidade.
Quanto mais você fala e pensa sobre isso,
mais você vagueia para longe da verdade.
Pare de falar e pensar,
e não há nada que você não será capaz de conhecer.
Retornar à raiz é encontrar o sentido,
mas perseguir aparências é se perder da fonte.
No momento da iluminação interior,
há um ir além das aparências e vacuidade.
As mudanças que parecem ocorrer no mundo vazio,
chamamos de real apenas por causa de nossa ignorância.
Não busque a verdade;
somente cesse de nutrir opiniões.

Não permaneça no estado dualista;
evite tais buscas cuidadosamente.
Se houver mesmo um traço
disso e daquilo, de certo e errado,
a essência da Mente estará perdida na confusão.
Embora todas as dualidades venham do Um,
Não fique apegado mesmo a este Um.
Quando a mente existe imperturbada na Via,
nada no mundo pode ofender,
e quando uma coisa não pode mais ofender,
ela deixa de existir à maneira antiga.

Quando não surgem pensamentos discriminatórios,
a velha mente deixa de existir.
Quando os objetos do pensamento desaparecem,
o sujeito-pensante desaparece.
Coisas são objetos por causa do sujeito;
a mente é assim por causa das coisas.
Entenda a relatividade dessas duas
e a realidade básica: a unidade do vazio.
Neste Vazio as duas são indistinguíveis
e cada uma contém em si todo o mundo.
Se você não discrimina entre grosseiro e delicado,
você não será tentado ao preconceito e à opinião.

Para viver na Grande Via
não é fácil nem difícil,
mas aqueles com visões limitadas
são medrosos e indecisos;
quanto mais rápido se apressam, mais devagar se movem,
e o apego não pode ser limitado;
mesmo estar apegado à idéia da iluminação
é se desviar.
Basta deixar as coisas serem a seu modo,
e não haverá nem vinda nem ida.

Obedeça à natureza das coisas [sua própria natureza],
e você caminhará livremente e imperturbado.
Quando o pensamento está dependente, a verdade está escondida,
pois tudo está obscuro e incerto,
e a prática penosa de julgar
traz aborrecimento e cansaço.
Que benefícios podem ser derivados
de distinções e separações?
Se você deseja mover-se na Via Única,
não desgoste mesmo do mundo dos sentidos e idéias.
Na verdade, aceitá-los plenamente
é igual à verdadeira Iluminação.
O sábio não se empenha por metas,
mas o tolo restringe a si mesmo.
Há um Dharma, não muitos;
as distinções surgem
das necessidades aferrantes dos ignorantes.
Buscar a mente com a mente
é o maior de todos os erros.
[Outra versão: Buscar o espírito com o espírito

é o maior de todos os erros.]

Repouso e inquietação surgem da ilusão;
com a iluminação não há gostar e não gostar.
Todas as dualidades provém de inferência ignorante.
São como sonhos ou flores no ar:
é tolice tentar agarrá-los.
Ganho e perda, certo e errado:
tais pensamentos devem finalmente ser abolidos imediatamente.

Se o olho nunca dorme,
todos os sonhos cessarão naturalmente.
Se a mente não faz discriminações,
as dez mil coisas
são como são, de única essência.
Entender o mistério desta essência-Una
é ser liberado de todas as confusões.
Quando todas as coisas são vistas igualmente,
a Auto-essência intemporal é alcançada.
Nem comparações ou analogias são possíveis
neste estado sem causa e sem relações.
Considere o movimento estacionário
e o estacionário em movimento:
tanto o movimento quanto o repouso desaparecem.
Quando tais dualidades deixam de existir,
a Unidade em si não pode existir.
Para esta finalidade última
nenhuma lei ou a descrição se aplica.
Para a mente unificada de acordo com a Via,
todo esforço auto-centrado cessa.
Dúvidas e indecisões desvanecem-se
e a vida na fé verdadeira é possível.
Com um único golpe somos libertados da sujeição;
nada se agarra a nós e não nos prendemos a nada.
Tudo está vazio, claro, auto-iluminado,
sem o esforço da força da mente.
Aqui pensamento, sentimento, conhecimento e imaginação
não têm valor.
Neste mundo das coisas tais como elas são
não há nem eu nem o outro.

Para entrar diretamente em harmonia com esta realidade,
simplesmente diga quando surge a dúvida: 'Não dois."
Neste "não dois" nada é separado,
nada é excluído.
Não importa quando ou onde,
iluminação significa entrar nesta verdade.
E esta verdade está além de extensão ou diminuição no tempo
ou espaço;
nela um único pensamento tem dez mil anos.

Vazio aqui, Vazio ali,
mas o universo infinito se posta
sempre diante de seus olhos.
Infinitamente grande e infinitamente pequeno:
nenhuma diferença, pois as definições desapareceram
e as fronteiras não são vistas.
Assim também com o Ser e não-Ser.
Não perca tempo com dúvidas e argumentos
que nada têm a ver com isso.

Uma coisa, todas as coisas:
mova-se entre elas e se misture,
sem distinção.
Viver nesta compreensão
é estar sem ansiedade sobre a não-perfeição.
Viver nesta fé é o caminho para a não-dualidade,
porque o não-dual é uno com a mente confiante.

Palavras!
A Via está além da linguagem,
pois nela não há
nem ontem
nem amanhã
nem hoje.

***

*Gentil Saraiva Jr.